Conversas de Café com… Enfermeira Francisca

11 de Maio, 2020 0 Por Planetadosavos

É hoje. Hoje celebra-se o Dia Mundial do Enfermeiro. Mais do que nunca devemos dar valor aos enfermeiros e a todos os profissionais de saúde. São os que estão na linha da frente, neste momento de pandemia. São os que ficam marcados pelas máscaras. São os que ficam marcados pelos rostos de dor. Agora, os únicos contactos dos que não podem receber visitas. O Planeta dos Avós esteve à conversa (virtualmente) com Francisca Rocha, enfermeira, recém licenciada, na Santa Casa da Misericórdia dos Arcos de Valdevez. Francisca está a ter a maior lição de enfermagem da sua vida. 

Planeta dos Avós – Boa tarde Francisca. Vamos começar pelo início. Há quanto tempo é enfermeira?

Francisca Rocha – Sou enfermeira há cerca de dez meses. 

P.A.: Para uma pessoa tão jovem e em início de carreira como tem sido o trabalho nesta pandemia?

F.R.: Não esperava ter de enfrentar uma situação como esta, e tão cedo na minha carreira. Trabalhar durante esta pandemia tem sido um desafio a cada dia que passa, mas felizmente temos tido apoios para que não nos faltem equipamentos de proteção individual e, desta forma, para que possamos proteger-nos e proteger os nossos utentes o mais possível. 

P.A.: Que diferenças nota no trabalho antes e agora com o covid-19?

F.R.: A principal diferença foi, desde logo, as alterações à organização do serviço. Desde o aumento da carga horária, porque começamos a fazer turnos de 12 horas, a trabalhar sempre com a mesma equipa, por forma a cruzarmo-nos o mínimo possível com outras pessoas que não fosse estritamente necessário. Também a utilização de máscara de proteção durante as doze horas de turno foi uma grande diferença, que até inicialmente os próprios utentes estranharam. Foi necessário também um grande esforço da nossa parte em explicar-lhes o porquê de ter de ser assim, para que compreendessem que era para sua própria proteção e para que não ficassem assustados.

P.A.: Quais são as principais dificuldades que enfrenta?

F.R.: Além das dificuldades que são evidentes e comuns a toda a população, com o aumento da carga horária, a principal dificuldade que sentimos é mesmo o cansaço físico que é evidente ao fim de 12 horas de trabalho e de seis dias de turnos.

P.A.: Há espaço para medos?

F.R.: Acho que é inevitável que haja sempre algum receio de poder transmitir a doença à família com quem moro, mesmo sendo praticamente impossível com todas as medidas de prevenção que adotamos no trabalho.

P.A.: Os idosos, nem ninguém, não podem receber visitas de familiares. Como se sentem os idosos?

F.R.: Desde o início, foi muito complicado explicar aos nossos idosos o porquê de não poderem receber visitas, e ainda mais difícil que não fosse possível dar-lhes uma perspetiva de quanto tempo essa situação iria durar. Mesmo tendo começado a compreender a situação, foi muito difícil para eles lidarem com a falta da presença dos familiares, sendo que a maior parte recebia visitas quase diariamente. Para tentar minimizar este impacto nos idosos, houve desde logo um esforço e uma atenção especial em agilizarmos o contacto frequente com as famílias, quer fosse via telefone ou por videochamada.

P.A.: Como estão a fazer para os idosos manterem o contacto com a família?

F.R.: Logo desde início agilizamos com as famílias a possibilidade de fazermos videochamadas para que pudessem falar e ver os nossos idosos, pelo menos dia sim, dia não. Desta forma permitimos que não perdessem o contacto e conseguimos minimizar, dentro do possível, esta distância. As videochamadas têm sido uma grande novidade para os idosos, mas ao mesmo tempo tem conseguido deixá-los muito felizes por poderem continuar a ver a família. Para nós, é muito gratificante podermos assistir a esses momentos.

P.A.: Neste momento, como funciona o hospital no atendimento aos idosos?

F.R.: Sendo os idosos um dos principais grupos de risco, houve sempre a atenção de minimizar o máximo possível as idas ao hospital, que não fossem estritamente necessárias. Durante o período mais crítico, chegaram mesmo a ser suspensas as consultas não essenciais. Agora, com o início desta fase de desconfinamento, já há perspetiva de começarem a ser realizadas algumas consultas, tendo sempre em atenção redobrada as medidas de prevenção, especialmente no caso dos idosos, que terão de utilizar sempre máscara de proteção e cumprir as normas de distanciamento e higienização das mãos.

P.A.: Como será o futuro?

F.R.: No futuro penso que iremos ter sempre presente nas nossas memórias este período mais difícil pelo qual passamos. Teremos sempre especial atenção em proteger ao máximo os nossos idosos que infelizmente acabaram por ser os mais afetados com esta pandemia. Num futuro mais distante, em que eventualmente surja uma vacina, tenho esperança que com o passar do tempo tudo possa voltar à normalidade.

P.A.: O tão dito “Vai ficar tudo bem”. Obrigada, Francisca. E muito boa sorte. 

F.R.: Obrigada eu, Catarina. 

Fonte: Tv7Dias
Fonte: Público
Fonte: Correio da Manhã